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A única maneira de substituir um carro velho - um Polo de 1992 que nunca fez mal a ninguém mas que, por falta de amortecimento, talvez viesse a fazer, indo a direito quando se quisesse curvar - é arranjar um carro mais velho ainda.
Foi o que eu fiz. Comprei um Toyota Corolla de 1985. Foi o ano em que o meu amigo Chico Sande e Castro e eu fizemos a festa dos nossos 30 anos. Nesses anos, eu andava sempre num carocha preto de 1962, que tinha apenas 23 anos. E eu era sete anos mais velho do que ele. Nessa festa, o Chico disse-me, à frente de mim e do meu irmão, que eu já não tinha idade para andar de carro em segunda mão: "Tens trinta anos. Já não és nenhum puto: compra um carro novo."
Perguntei-lhe qual era o melhor automóvel barato. Ele, com toda a autoridade do curso de engenharia automóvel de Brighton e uma vida inteira (mesmo naquela idade) de inteligência, paixão e prática de tudo o que tinha carburador (naquele tempo em que quase tudo tinha carburador), respondeu severamente: "Os carros japoneses."
Muito nos rimos, os ignorantes que lá estávamos. Falou-se, com emoção, dos carros dos países que tinham ganho a Segunda Guerra Mundial e da vantagem moral dos charutos que fabricavam. Lá tive de passar para hoje. Carros ingleses já não há. Ando para aí no meu Toyota e percebo porque resistiu melhor do que os automóveis contemporâneos. É bem feito. Ele tem 27 anos e eu sou 30 anos mais velho do que ele. As voltas que a vida dá. Rendo-me.

Miguel Esteves Cardozo (Público, abril 2012)