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Portugal era, em 2014, o quarto país europeu com carros mais velhos em circulação, de acordo com as estatísticas disponíveis para 18 países. Mas a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) diz que a antiguidade dos veículos nacionais voltou a aumentar em 2015, com o segmento dos ligeiros de passageiros a atingir a idade média de 12,4 anos (ver gráficos).

Em 2016 esta realidade vai mudar, porque a idade do parque automóvel português deverá diminuir. De janeiro a outubro já foram vendidos mais de 200 mil novos veículos ligeiros (onde se incluem os ligeiros de passageiros e os comerciais), um nível de vendas que já não era registado desde 2010. No entanto, a maior mudança notou-se nos 3567 veículos “verdes”, híbridos e elétricos, vendidos de janeiro a setembro, que correspondem a 1,9% do mercado total — uma percentagem que nunca tinha sido atingida.

Fonte da Renault Portugal admite que, “se for mantido este nível de vendas até ao fim do ano, as vendas totais de veículos híbridos e elétricos em 2016 podem duplicar face às vendas de 2015”.

Esta recuperação do mercado automóvel não quer dizer que os danos da crise foram corrigidos. Aliás, o secretário-geral da ACAP, Hélder Pedro, considera que no Orçamento do Estado para 2017 “não foi consagrada qualquer medida específica que permitisse reduzir a antiguidade do parque automóvel nacional, cuja idade média aumentou bastante nos anos da crise, em particular em 2012, quando as vendas caíram cerca de 40% e o mercado português regrediu para níveis de 1985”.

No Ministério do Ambiente, o entendimento é diferente. Fonte oficial deste ministério referiu ao Expresso que “o Orçamento do Estado para 2017 prevê a atribuição de 2250 euros por veículo elétrico adquirido, até um máximo de mil veículos apoiados”. E explica que “este incentivo aos veículos 100% elétricos será atribuído após apresentação da respetiva fatura de aquisição do veículo”.

Além disso, o Orçamento consagra “um incentivo ao veículo híbrido plug-in, de natureza fiscal, que consiste na redução da receita fiscal prevista para o Imposto sobre Veículos” (ISV) de 562,5 euros por cada veículo novo. “Ambos pretendem acelerar a adoção de tecnologias mais limpas e amigas do ambiente”, refere a fonte do Ministério do Ambiente.

Apesar do crescimento das vendas nacionais de automóveis ter abrandado em outubro, o total das vendas de janeiro a outubro atingiu 201.025 veículos ligeiros, mais 14,2% do que em igual período de 2015 (ver gráficos), muito longe dos níveis do ano 2000, quando foram vendidos em Portugal 410.530 veículos ligeiros.


Isto quer dizer que há muito espaço natural para crescer, até porque em 2014 o mercado automóvel nacional era o quarto mais envelhecido da União Europeia, onde 60,7% dos automóveis em circulação tinham mais de 10 anos de idade (só Hungria, Grécia e Polónia têm automóveis mais envelhecidos).

Segundo a ACAP, nos cinco anos seguintes a 2010 a idade média dos veículos ligeiros de passageiros nacionais aumentou 2,3 anos, passando de 10,1 anos em 2010, para os 12,4 anos em 2015. No mesmo período, a idade média dos veículos comerciais aumentou de 9,6 para 12,7 anos, respetivamente, refere a ACAP. Entre os 28 países da União Europeia, a idade média dos automóveis é bastante inferior, tendo passado de 8,8 anos em 2010 para 9,7 anos em 2015, segundo dados da ACEA — Associação dos Construtores Automóveis Europeus.

Entre as medidas que promoveram a renovação do parque automóvel é sempre citado o exemplo dos incentivos ao abate. Para a ACAP, esta é uma medida que poderia ser retomada; o Orçamento do Estado de 2017 optou pela compra de veículos elétricos e plug-in (com carregamento das baterias através de ficha elétrica), descontinuando o incentivo ao abate, e pela atribuição de um desconto aos primeiros mil automóveis elétricos que forem comprados em 2017.

“Os países com parques automóveis mais envelhecidos, como a Polónia e a Roménia, estão a estimular a renovação de veículos através dos incentivos ao abate”, refere o secretário-geral da ACAP, defendendo que em Portugal a medida deveria ser repensada, para estimular a troca de carros usados por veículos novos.

ACP: “MAIS UM SAQUE FISCAL”
A proposta de Orçamento do Estado para 2017 “prossegue a via rápida da receita através do sector automóvel”, acusa o Automóvel Club de Portugal (ACP). “Atualizações de impostos e taxas e, como vem sendo hábito, acompanhados de um pacote exótico de taxas e impostos adicionais”, ataca, considerando que o automobilista “assiste novamente à falta de políticas e estratégias de mobilidade inteligente e eficaz, ficando a nu mais um saque fiscal ao sector automóvel, com inevitáveis consequências na economia”. No total, o ACP considera que há “mais de 22 milhões de euros que o Governo espera arrecadar face ao ano anterior, em Imposto sobre Veículos (ISV) e Imposto Único de Circulação (IUC)”.

Esta proposta de orçamento “fomenta um parque automóvel velho, cada vez mais inseguro, com o fim do incentivo ao abate a veículos em fim de vida”, refere o ACP. E diz que “em todos os aspetos, é um Orçamento vazio. Sem futuro nem estratégia, não tem outro objetivo além da receita fiscal”. Quanto ao preço dos carros novos, o ACP garante que “sobem em flecha”. “O ISV sobe 3%: pagam os ligeiros de passageiros, os ligeiros de mercadorias e as motos — sejam mais ou menos poluentes, todos vão pagar mais”, comenta.

E o selo do carro, o IUC, “volta a sofrer um aumento de 0,8% e traz uma taxa adicional nova se a viatura emitir mais de 180 gramas de dióxido de carbono por quilómetro”. O clube dá o exemplo de uma versão do Opel Insignia, que paga mais 65,24 euros tal como um Porsche 911 ou um Ferrari F12 Berlinetta. Por outro lado, o ACP considera que o desconto para híbridos plug-in “é exótico”: 562,5 euros a abater na fatura do ISV, através de pedido para o efeito junto da Autoridade Tributária Aduaneira.

OS ELÉTRICOS MAIS VENDIDOS
1. O Nissan Leaf vendeu de janeiro a setembro 240 unidades, praticamente o mesmo que os seus dois concorrentes juntos. Desde 2010, este modelo vendeu em Portugal 671 unidades.

2. Desde 2010 foram vendidos na Renault 328 unidades do Zoe, que liderou as vendas em 2015, com 153 unidades, mas foi ultrapassado de janeiro a setembro pelo seu concorrente elétrico da BMW.

3. O BMW i3 só começou a ser vendido em 2013, com seis unidades, passando para as 59 unidades em 2014 e em 2015 atingiu 128, mas até setembro de 2016 já vai em segundo. No total, vendeu 320 unidades.

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